quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A propósito, você viu o jornal?


Foto: planetaeducacao.com.br

Ricardo abriu a janela do quarto despretensiosamente, exatamente como fazia todas as manhãs. 

Olhou para o lado com o canto do olho e não viu sua esposa deitada na cama. Achou estranho.

- Onde será que ela se meteu? - bradou.

Paranóico que era, chegou a cogitar a hipótese de ela ter fugido com o vizinho. Nunca em toda sua vida havia se sentido merecedor do amor de tão bela mulher.

Alguns minutos depois, no entanto, parou de pensar besteira. Supôs que ela havia ido mais cedo à academia.

- Mulheres... - balbuciou com um sorriso nervoso estampado nos lábios.

Ainda de pijama e com o copo de café em mãos, saiu pela porta da frente. Olhou por todo o gramado, mas não encontrou o jornal.

Sentiu uma vontade imensa de espancar o jornaleiro. Nunca (nunca mesmo) recebia todos os 7 exemplares da semana - uma verdadeira desgraça para alguém aposentado.

Resignado, olhou para a casa da frente à procura de Ana, mulher do vizinho. Sua esposa não sabia, mas mantinha uma queda (quase um abismo) pela bela e tenra mulher do vizinho.

Seus olhos, todavia, não lhe revelaram nada. Não havia ninguém na casa da frente, nem na do lado. Só então percebeu que havia algo errado!

Notou que havia dois ou três carros abertos, o suficiente para pensar em chamar a polícia. Porém, ainda com o telefone em mãos, constatou que não havia ninguém na rua. Absolutamente ninguém.

Entrou em casa e tentou contatar algumas pessoas. Como não obteve êxito em nenhuma das tentativas, percebeu que a coisa era mais séria do que imaginava. 

Decidiu voltar para o jardim. 

Um silêncio assustador tomava conta da cidade. Lembrou-se instantâneamente de sua timeline. Havia algo errado. Um ataque terrorista, talvez.

Imbuído das melhores intenções, pegou o carro e saiu à procura de sua esposa. Precisava encontrá-la e dar fim àquela sensação desagradável que lhe acometia. Será que ela estava viva? Será que não havia fugido com outro homem?

Ademais, aproveitaria para comprar o jornal. Sensibilidade não era o forte de Ricardo.

Alguns minutos mais tarde, entretanto, sentiu-se ainda pior. Não era somente sua esposa que estava desaparecida, mas todas as pessoas do seu bairro. Desde que saíra de casa, não havia avistado um único ser humano. Convenceu-se de que deveria ser algo sério.

Que merda é essa? - indagou-se em voz alta. - Onde estão todos?

Começou a chorar à medida que ia vencendo as ruas e os bairros. Por que afinal era a única pessoa naquelas imediações? Será que existiam outros como ele em algum lugar remoto? Nos confins da Groenlândia, talvez!?

Após percorrer mais de 200km, resolveu voltar para casa. Se era para ficar só, que fosse em seu próprio lar. Pelo menos ainda tinha na geladeira metade de uma pizza que havia sobrado da noite anterior.

Assim, parou em um posto para abastecer seu veículo e comprar o jornal. Abasteceu, é verdade, mas não encontrou o jornal.

Numa ingenuidade quase sem precedentes, pegou R$ 100,00 da carteira e depositou sobre a bomba de gasolina. Sozinho, mas honesto, pensou.

Chegou em casa, enfim.

Sentou-se no sofá e ligou a televisão. Todas as emissoras estavam fora do ar. Sentiu-se o verdadeiro Will Smith naquele filme cujo nome não se lembrava...

Até que sentiu uma vontade louca de urinar. Sem rodeios, levantou-se e começou a mijar no tapete da sala.  

- AAAAAAAAAAAAHHHHHHHHH! - suspirou.

- PORRA, RICARDO! - gritou Amélia, sua esposa. - ESTÁ FICANDO LOUCO?

- AMÉLIA!! VOCÊ ESTÁ VIVA?! - comemorou o marido.

- Viva e mijada, seu imbecil! Vira essa coisa para lá! Qual é o seu problema, homem?

Ricardo esperou seu cérebro processar as informações antes de começar a se defender dos ataques da esposa. Então, um pouco mais lúcido, disse-lhe com a voz firme:

- Sabe... tive um sonho bem legal com você... Pena que acabou... 

Mesmo estando deitada sobre uma verdadeira poça de mijo, Amélia gostou do que ouviu. Curiosa, perguntou ao marido:

- O que você sonhou, meu amor?

- Essa é uma longa história, querida... - respondeu. - A propósito, você viu o jornal? 


4 comentários:

Dani M. disse...

"A propósito, você viu o jornal?" é o tipo de frase que cai bem em praticamente todas as situações, quando você quer mudar de assunto ou quando quer iniciar uma conversa casual...
Sempre uso e recomendo!
xD

Igan Hoffman (fazendo o impossível) disse...

kkk,muito interessante, juro que não imaginava o desfecho. Senti-me um pouco como na música O Dia em Que a Terra Parou do Raulzito, pena que era sonho, pois se continuasse daria uma boa história. Como escrever uma história sem outros personagens hein? Kelvim, já mijasse na cama alguma vez depois de velho? kk
Abraços
Visitem http://diariodeigan-h.blogspot.com

Twitter @IganHoffman

João B J junior disse...

hahaha! Muito show.

David Kalid disse...

Putz! Muito bom cara, muito bom mesmo! "A propósito, você viu o jornal?" uhauhauhauhahuahuauhahu
Isso merecia continuação! haha

@davidkalid