sábado, 2 de maio de 2020

Parecia inofensiva, mas me dominou

Sempre fui um cara romântico. Sempre. E não tenho problema algum em admitir isso.

Esse lado "sonhador", sabe-se lá por que, sempre fez parte da minha personalidade.

Algo relacionado à minha criação, certamente.

Freud sempre explica.

Contudo, confesso-lhes que estava um tanto desanimado nesse aspecto da vida.

A sensação era de que havia ligado o piloto automático.

Em consequência, sentia-me meio desinteressado. Apático.

Diferentemente do que muita gente acha, encontrar a pessoa certa é mais difícil do que parece.

Não se trata de encontrar uma pessoa perfeita, que, como todos sabemos, não existe. 

Trata-se de encontrar alguém que, além de possuir qualidades admiráveis, seja capaz de virar seu mundo de cabeça para baixo.

Que faça seu olho brilhar, como já escrevi  em outras oportunidades aqui neste espaço.

Mesmo porque, se você inicia um relacionamento com alguém que não lhe proporcione isso, você certamente está se relacionando errado.

Não? 


Ocorre que, no meio dessa apatia toda, de súbito, acabei me apaixonando por uma mulher incrível.

"De olhos de águas vindas de outros oceanos".

Parafraseando Charlie, o Brown, uma mulher que parecia inofensiva, mas me dominou.

Uma história com contornos bem clássicos, convenhamos. 

Afinal, por mais paradoxal que isto soe, é consenso que só encontramos aquilo que estamos procurando quando enfim paramos de procurar.

A particularidade, no caso, reside no fato de que consegui tal proeza durante uma grave pandemia.

Quem, em sã consciência, apaixona-se em meio a uma "epidemia infecciosa que se espalha entre a população localizada numa grande região geográfica"?

Quem?

Eu, graças a Deus.

De todo modo, terei uma ótima história para contar daqui alguns anos.

No mínimo.

sábado, 18 de abril de 2020

O mundo dá voltas e eu posso provar

O mundo dá voltas e eu posso provar.

Em um fim de semana qualquer de 1998, eu e minha irmã resolvemos visitar alguns amigos/parentes em Porto Alegre, nossa cidade natal.

Como havíamos trazido toda a mudança para Santa Catarina, o apartamento onde morávamos ficou guarnecido com apenas alguns poucos móveis, além de alguns objetos abandonados.

Dentre esses objetos, havia alguns discos de vinil. E, dentre estes, o famoso álbum branco dos beatles.

Antes que me xinguem, e para contextualizar, gostaria de dizer em minha defesa que vinis não eram tão valorizados na época, assim como que eu não gostava tanto de beatles.

Pois é.

Voltando ao assunto, tomei a brilhante decisão de vender o disco para um conhecido, sem anuência dos meus pais, pelo equivalente a uns R$ 50,00 nos dias de hoje, talvez menos.

Com o passar dos anos, contudo, para minha desgraça particular, não apenas passei a ouvir vinis como também virei um grande fã de Beatles.

Logicamente, então, acabei me arrependendo (e muito) de ter vendido o vinil. 

Arrependimento, aliás, foi a primeira sensação que me acometeu assim que comprei o toca-discos.

Onde eu estava com a cabeça, afinal?

Ocorre que - prestem atenção agorao conhecido para quem vendi o disco, por uma dessas coincidências da vida, é filho do atual marido da minha mãe (também conhecido como meu padrasto). 

Não bastasse isso, recentemente, meu padrasto, na falta de uma palavra melhor, "confiscou" do filho o aparelho toca-discos que lhe pertencia e os vinis que o acompanhavam.

Dentre esses vinis, claro, encontrava-se o bendito álbum branco dos beatles que eu, clandestinamente, havia vendido anos antes.

E hoje, ainda que por empréstimo, o disco em questão está aqui comigo, na minha sala, repousando em berço esplêndido.

Sim, ele está aqui comigo novamente mesmo depois desses anos todos.

Isso só prova que o mundo, de fato, está em constante movimento.

E que nada é definitivo. Nada.

Como diria o filósofo Badauí, "o mundo dá voltas".


Ps. Pai, se você está lendo este texto, e eu sei que está, não fique chateado, pois o disco em questão iria se perder como todos os outros, não? (rindo, mas de nervoso).


domingo, 12 de abril de 2020

A derrota do dinheiro

Nem um roteirista de gosto duvidoso seria capaz de criar uma história tão clichê.

Um vírus mortal, surgido em uma província chinesa qualquer, na manifesta ânsia de mais uma seleção natural, faz uma devassa na população.

Milhares de vidas sendo ceifadas enquanto cientistas, no mais aceitável dos atos de vaidade, disputam para ver quem conseguirá estampar seu sobrenome numa possível vacina capaz de curar/imunizar a população.

Já devo ter visto esse filme na sessão da tarde umas três vezes, pelo menos.

É simplesmente surreal pensar que, neste exato momento, grande parte da população mundial esteja trancada em casa.

Todos reféns de si mesmos.

Enclausurados em suas próprias residências, seja por medo da morte, seja pelo receio (empático) de repassar o vírus às quatro pessoas que fazem parte de sua média de contágio.

Até mesmo grande parte de nossos governantes (os sensatos, pelo menos), num ato tão benevolente quanto surpreendente, ordenaram às pessoas que se isolassem.

Fiquem em casa, eles disseram.

Como se fossem fiéis cumpridores da Constituição Federal, dos famosos Pactos Internacionais ou mesmo de eventuais Leis Divinas (quem sou eu para cravar se elas realmente existem?), colocaram a vida em primeiro lugar.

Mesmo cientes de todos os problemas que acompanharão esse "sacrifício da economia" (desemprego, fome, criminalidade, etc), ao menos uma vez, uma única vez, o dinheiro foi deixado de lado.

Optou-se por privilegiar o bem mais precioso e inegociável, aquele que nem todo dinheiro do mundo é capaz de comprar: a vida.

E isso nunca deixará de ser uma vitória do ser humano.

Apesar de toda tristeza, não deixo de sentir um certo orgulho de ter feito parte desse peculiar pedacinho da história.

Por mais ingênuo que isto soe: ainda há esperança.

Só nos resta, agora, fazer nossa parte e torcer para que esses dias sombrios acabem logo.

Amém.

domingo, 29 de março de 2020

A condição - CAPÍTULO FINAL

Marcelo foi logo contando tudo aos amigos antes mesmo de a primeira rodada de chopes aportar à mesa.

Seus olhos - os olhos nunca mentem - o denunciavam. 

Mesmo a distância, era possível perceber que, naquela mesa de bar, havia um homem encantado.

O segredo compartilhado sob juras de sigilo, contudo, não demorou muito a se espalhar.

Um dos amigos contou a outro, que contou à esposa, que contou a uma amiga, que contou a um primo, que namorava a melhor amiga de Márcia, que contou tudo a esta.

Em menos de uma semana, a vizinha de Marcelo já estava ciente do vazamento do agora ex-segredo.

Márcia, que a essa altura também se encontrava apaixonada, ficou possessaMais do que qualquer outra coisa nesta vida, detestava promessas quebradas.

Então, tal como havia prometido a seu vizinho, com a frieza de uma geladeira e a delicadeza de uma motosserra, rompeu o laço que havia se criado entre eles.

E, daquele dia em diante, mesmo contra tudo o que sentia, nunca mais olhou Marcelo nos olhos. 

Nunca mais.

Marcelo, sem ao menos se dar ao trabalho de disfarçar, ruiu feito um suflê retirado do forno antes da hora.

Estava sofrendo. 

Desta vez, porém, não mais pela doce angústia inerente à paixão

Por saber que, por mais esforços que envidasse, jamais haveria de conquistar outra Márcia.

Até porque, nesta dimensão, não existia outra mulher igual.

Márcia era incomparável.

Incomparável.

Azar do Marcelo, sorte dos demais mortais.

Coisas da vida.


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"This is the end, my only friend, the end" (FIM).

sábado, 28 de março de 2020

A condição - CAPÍTULO 5

Aquela, claro, foi apenas a primeira vez que se encontraram.

A química que sequer desconfiavam ter praticamente impunha uma continuidade. 

Não se tratava mais de uma questão de escolha.

Então, aos poucos, passaram a se ver com mais frequência

Uma, duas, três vezes na semana, tudo para o deleite de Marcelo, que ainda continuava incrédulo com o fato de estar se relacionando com uma mulher que julgava inalcançável.

Com o passar dos dias, aquela paixonite primaveril e adolescente que nutria por sua vizinha, como não poderia ser diferente, passou a ganhar corpo.

E, quando menos se deu por conta, estava completamente apaixonado por Márcia. COMPLETAMENTE.

Marcelo encontrava-se demsasiadamente sôfrego. Sem dúvida,  o dicionário não possuía uma palavra mais adequada para descrevê-lo.

Só havia um único problema (sempre há um problema).

Não aguentava mais carregar o fardo de não poder contar aos outros o motivo de tanta felicidade.

Queria compartilhar com o mundo, a qualquer custo, o porquê desse sorriso que carregava estampado no rosto dia após dia.

Mesmo porque, que graça teria envolver-se com a mais incrível das mulheres se ninguém pudesse saber disso?

Resolveu por bem, então, marcar um chope com dois de seus melhores confidentes e, enfim, contar tudo o que vinha lhe acontecendo nos últimos quatro meses.

Estava decidido, iria descumprir, deliberadamente, a única condição imposta por Márcia.

Marcelo não TINHA que contar alguém, ele PRECISAVA contar a alguém.

CONTINUA... 






sexta-feira, 27 de março de 2020

A condição - CAPÍTULO 4

Marcelo resolveu por bem dar uma última analisada na semideusa que invadira a sala de seu apartamento.

Sabia que aquela seria a última vez que iria vê-la com os tristes olhos de quem nunca teve a chance de tocá-la.

Nesse ínterim, Márcia o olhava com certa curiosidade. 

Imaginava que seu vizinho seria mais afoito, sobretudo diante de tudo que havia ouvido de seus amigos.

De qualquer forma, ali parada sob o sol que rasgava a janela do apartamento, explodia em beleza.

Até a extemporânea árvore de natal parecia estar interessada em Márcia, tamanho o magnetismo daquela mulher. 

Ainda vestido, Marcelo aproximou-se.

Nem uma escola de samba carioca seria capaz de acompanhar a cadência de seu coração naquele momento.

Num movimento certeiro, então, levantou os cabelos de Márcia e passou-lhe a beijar o pescoço, agora também desnudo.

Márcia, mais interessada que nunca em seu vizinho, retribuiu tentando beijá-lo na boca.

Ele, contudo, limitando-se a balançar a cabeça para os lados, negou o beijo. Queria postergar aquele momento a todo custo.

Ato contínuo, colocou Márcia deitada no sofá e passou a beijar-lhe o corpo sem qualquer pressa.

Começou pelos seios, desceu para barriguinha,  uma rápida passada pelo ventre, coxas, pézinhos 35, coxas de novo, ventre, seios, ventre... e assim sucessivamente.

Márcia não demorou muito a perder o controle; pelo contrário, logo teve um orgasmo forte o bastante para lhe fazer berrar.

Em seguida, ainda sob o testemunho da inconveniente árvore de natal, transaram no sofá.

Márcia estava extasiada

E, com o primeiro sinal de relaxamento, pôs-se a chorar freneticamente. Soluçava. 

Porém, tão logo se acalmou, abriu um sorriso satisfeito para Marcelo, que, enfim, tascou-lhe um beijo

Foi um beijo lento; um beijo ao mesmo tempo doce e salgado; foi "o beijo".

Ambos sorriam.

CONTINUA...

quinta-feira, 26 de março de 2020

A condição - CAPÍTULO 3

"Fala logo de uma vez", pensou Marcelo.

- A condição é uma só... - disse Márcia, após alguns segundos de silêncio que mais pareceram décadas.

Em seguida, continuou: - Eu só vou me envolver amorosamente com você se prometer não contar nada a ninguém. Ninguém!!! Ouviu?

- Trato feito! - decretou Marcelo, rapidamente, com uma certeza de dar inveja aos librianos de plantão.

Agora mais sisuda, Márcia disparou: - Se eu suspeitar que alguém sabe sobre a gente, eu nunca mais encosto um dedo em você. Nunca mais. Estamos entendidos?

- Ninguém ficará sabendo de absolutamente nada. Juro pela alma de meus ancestrais.

- Ok - assentiu ela, agora já acompanhada de um sorriso malicioso.

Márcia não disse mais nada. Apenas levantou-se, largou a já cansada taça de vinho e soltou as alças do vestido rodado que envolvia seu corpo.

Seu corpo, como Marcelo suspeitava, era de uma beleza surreal.

Parecia ter sido esculpido a mão por um artista renascentista

Praticamente o molde da mulher ideal.


Marcelo, que assistia a tudo incrédulo, engoliu em seco.

Tesão, nervosismo, euforia, ansiedade, paixão: uma gama de sentimentos rasgava-lhe o peito sem qualquer compaixão.

A mulher que desejou por anos a fio, e por quem nutria uma paixão avassaladora, ainda que platônica, estava de pé, em sua sala, completamente nua.

Aparentemente, havia chegado, enfim, os tão aguardados dias de glória.

Obrigado, senhor! - disse Marcelo a si mesmo, baixinho, antes de partir para o ataque.

CONTINUA...

quarta-feira, 25 de março de 2020

A condição - CAPÍTULO 2

Ainda atônito e sem saber o que dizer, Marcelo limitou-se a deixá-la entrar em seu QG.

"Eu não acredito que a Márcia está na minha casa" - repetia para si mesmo, em pensamento, numa espécie de mantra particular.

A casa estava uma bagunça sem precedentes, é claro.

Mas Márcia parecia não ter se importado muito, tampouco Marcelo que, a essa altura, urrava por dentro.

Sentia-se um adolescente e, como tal, não sabia ao certo como se comportar.

No melhor estilo Sr. Miyagi, cruzava as pernas, descruzava as pernas

Definitivamente, estava nervoso.

Ela, por outro lado, carregava consigo um sorriso indelével.

A energia que emanava daquela mulher era quase suficiente para acender as luzes do pinheiro de natal que guarnecia a sala há ininterruptos três anos.

A essa altura, Márcia sabia que tinha seu vizinho na mão. E, claro, parecia estar se divertindo com isso.

Pouco falavam, muito bebiam.

Até que Márcia, após um cruzar de pernas tão clichê quanto espetacular, quebrou o silêncio:

- Vou ser bem direta. Vim até aqui por um motivo bem específico...

- E qual seria esse motivo? - retrucou Marcelo de bate pronto.

Quase em câmera lenta, Márcia mordeu os lábios de um jeito sexy o bastante para iniciar um processo de autocombustão em Marcelo. 

Em seguida, sem qualquer cerimônia, aproximou-se do ouvido de Marcelo e sussurrou:

- Eu quero você... Quero muito...

Marcelo estava incrédulo. Era bom demais para ser verdade. 

Ele mesmo reconhecia que não era merecedor de tamanha dádiva.  

Contudo, antes que pudesse esboçar qualquer reação, Márcia disse-lhe:

- Só tem uma condição.

- Que condição? - tornou a perguntar ele, agora curioso.

Então... - respondeu Márcia.

CONTINUA...

terça-feira, 24 de março de 2020

A condição - CAPÍTULO 1

Marcelo nutria uma espécie de paixão platônica por Márcia, sua vizinha.

Todos seus amigos e familiares sabiam disso. Afinal, não fazia qualquer questão de esconder o quão aquela mulher, com quem sequer tinha trocado meia dúzia de palavras, retirava-lhe o chão.

Não era para menos, já que Márcia era um acinte de tão incrível.

Não se tratava apenas de beleza, embora esse fosse o seu grande carro-chefe

Era o jeito de Márcia que arrebatava Marcelo. O jeito ao mesmo tempo doce e atrevido em doses nada homeopáticas.

Como toda paixão platônica que se preze, porém, resignava-se ao plano teórico.

Marcelo jamais teria coragem de se declarar a Márcia. 

Jamais.

Ouvir um sonoro não daquela boca seria demais para ele. Para qualquer um, na verdade.

Marcelo era um sonhador, e, como tal, preferia sonhar.

Além do que, não se julgava nem um pouco digno de uma mulher tão teoricamente perfeita.

Certo dia o certo dia sempre chega, contudo, Márcia ficou sabendo das não intenções de seu vizinho, o que a deixou curiosa.

Como toda mulher interessante, achou "fofo".

Não satisfeita, algumas semanas depois, resolveu por bem dar uma chance a Marcelo.

Então, com uma cara de pau sem precedentes, e munida de uma garrafa do seu melhor Malbec Argentino, colocou uma roupa sensual e tocou a campainha do apartamento de Marcelo.

Marcelo não escondeu a surpresa ao abrir a porta. Definitivamente, não acreditava no que seus olhos insistiam em lhe mostrar.

Não vai me convidar para entrar? - perguntou Márcia alguns segundos depois, num misto irresistível de timidez e ousadia.

Havia chegado, enfim, a vez de Marcelo.

Será mesmo?

CONTINUA...

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Tenho inveja de quem fuma

Não sou fumante, tampouco tenho a pretensão de me tornar um.

Ainda assim, confesso-lhes que tenho uma certa inveja de quem fuma.

Não do cheiro intragável, claro - sem trocadilhos de qualidade duvidosa, por favor.

Tenho inveja é do estilo

Estilo, aliás, talvez tenha sido o principal motivo que fez com que as pessoas virassem fumantes na década de 70.

A geração dos meus pais não me deixa mentir.

Tanto que alguns deles continuam estilosos (e se matando aos poucos) até hoje.

Como diz uma amiga: rindo, mas com respeito.

Até porque, o "se matando", como se sabe, é uma questão de ponto de vista. Nós, não fumantes, o fazemos com outras coisas menos escrachadas.

Estou mentindo?

Mas a coisa que mais me dá inveja, na verdade, é a pseudosserenidade que o fumante passa aos demais mortais.

Na próxima vez que você ver "um fumante", o que, convenhamos, é quase um xingamento nos dias atuais, repare bem:

Ele pode estar na situação mais estressante que existe, como em uma entrevista de emprego, por exemplo. 

E o que ele faz? Demonstra insegurança? 

Não! 

Ele, sem qualquer cerimônia, pede licença e vai até a rua fumar seu cigarro, assim como costuma fazer em todos os outros dias do ano.

Então, lá, parado, e olhando para o horizonte, exibe uma pseudosserenidade de dar inveja a um leão na savana.

Pseudo porque, certamente, está uma pilha de nervos por dentro.

É aquela velha história do pato na lagoa...

Em cima da água, calmaria; embaixo, pés a mil por hora.

Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

Como diria Zé Ramalho, "Freud explica".


domingo, 16 de fevereiro de 2020

Olhar de derrubar impérios

Era o olhar de derrubar impérios que distinguia Manu das demais mulheres.

Mesmo sem fazer qualquer força, seus olhos desgraçavam vidas masculinas. Por vezes, femininas também.

Seus olhos estavam um degrau acima do que conhecemos por perfeição.

Assim como uma xícara de café quente numa manhã de terça chuvosa no inverno do planalto catarinense, eram deveras convidativos.

Raros eram os homens que não sucumbiam àquele par de olhos de aspecto tão denso.

Seu olhar era de uma beleza tão avassaladora que chegava a ser intimidante.

Manu, por óbvio, estava ciente da força estrondosa de seu olhar, sobretudo quando usado de forma deliberada.

Palavras eram desnecessárias. Bastava pôr os olhos em alguém de forma proposital e ganhar seu coração.

Por isso, e por um pouco de pena também, evitava olhar os homens diretamente nos olhos.

Tudo que ela menos precisava era de mais um homem apaixonado em seu encalço.

Já havia dezenas deles por aí. Centenas, talvez.

Manu sentia-se uma espécie de Medusa dos tempos modernos que amolecia corações ao invés de torná-los de pedra.

Até que um dia, por ironia do destino, foi Manu quem se encantou por alguém. Mais precisamente, por Pedro, seu novo vizinho.

O problema é que Pedro parecia imune aos seus olhares dilacerantes.

Olhares que, em condições normais de temperatura e pressão, fariam um homem médio chorar.

Certo dia, após muito esforço, Manu  conseguiu convencer Pedro de saírem. Estava decidida: iria arrasar o coração daquele homem tal como estava acostumada fazer.

Então, quando sentados frente a frente, já munidos de uma taça de vinho cada, Manu não poupou esforços e lançou seu olhar mais intenso. Seu olhar mais fulminante.

Não funcionou.

De pronto, sentiu-se impotente diante de situação tão peculiar.

Aos poucos, então, o olhar de Manu foi cedendo lugar à tristeza.

E aquela mulher irresistível, de repente, passou a ter um olhar lânguido, um olhar bem diferente de outrora.

Manu, agora com a confiança abalada, sentia-se apenas mais uma mera mortal.

Seu olhar não derrubava mais os homens, quiçá impérios.

Tristes olhos os de Manu. 


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Correndo na chuva

No penúltimo domingo, resolvi sair um pouquinho da minha zona de conforto e correr na chuva.

Não é nada de tão extraordinário assim, eu sei. 

Até porque, como diz um amigo, não somos feitos de açúcar.

De todo modo, é algo que nunca faço de forma deliberada.

Se já o fiz, foi por pura falta de opção. 

Desta vez, no entanto, pensei: Foooooda-se! Vou correr na chuva!

Então, sem pensar muito - o que, geralmente, nos faz desistir -, calcei os tênis recém lavados e, tal qual um Forrest Gump, saí correndo.

Nem mesmo as poças mais traiçoeiras foram evitadas.

Corri com uma puta vontade.

Não sei se foi a água, o vento, a terra ou fogo (interno, no caso), ou mesmo a conjugação desses quatro elementos, mas o fato é que gostei demais da sensação de correr na chuva.

A questão sensorial, sem dúvida, fez toda a diferença. Definitivamente, foi a corrida mais interessante que dei nos últimos anos.

Guardadas as devidas proporções (tenho que parar de falar isso), estava me sentindo um Ayrton Senna.

Como se a chuva fosse uma espécie de elemento mágico.

Um diferencial. 

Neste último domingo, enquanto me vestia para correr, me surpreendi com meus próprios pensamentos. 

É que, quando me dei conta, estava ali, na sacada, olhando para o céu e torcendo por uma chuva torrencial.

Tão logo percebi a incongruência deles, meus pensamentos, sorri.

E pus-me a pensar sobre o quão é bom se transformar.

Eu diria: salutar.


Imagem: http://www.dicasdecorrida.com.br