sexta-feira, 19 de março de 2021

A gata que sabia demais

Havia recém completado seis meses de namoro com a Ju quando tudo aconteceu.

Lembro-me, como se fosse hoje, do dia em que a mãe dela, também conhecida como minha sogra, durante um café da manhã qualquer, disse-me que tinha uma espécie de segredo para contar.

E que apenas não teria feito isso antes porque tinha medo de me assustar.

Tudo isso sob o olhar vigilante da Juliana, que, ao que tudo indicava, olhava para sua mãe com uma expressão do tipo "será que não é melhor esperar mais um pouco?"

Talvez porque eu faça esse tipo de coisa o tempo todo, a princípio, achei que se tratava de algum tipo de brincadeira.

Então, educadamente, limitei-me a sorrir.

Os risos levemente nervososcontudo, convenceram-me de que estavam mesmo falando sério.

Naturalmente, fiquei bastante curioso

O que seria esse segredo familiar tão peculiar, afinal? - lembro-me de ter pensado.

Com o avançar dos segundos, porém, a curiosidade foi dando lugar ao receio.

E aquele suspense todo em torno da iminente revelação não estava ajudando em absolutamente nada.

Literalmente, estava com medo do que estava prestes a ouvir.

Até porque, se fosse algo bom, por que teriam demorado tanto tempo para me contar?

Por quê?

Inúmeras coisas, pois - inúmeras mesmo -, passaram pela minha cabeça.

Minha namorada seria filha do boto? Terraplanista?; ou, pior, uma eleitora do desgoverno Bolsonaro?

Já agoniado, pedi que me contasse logo qual seria o segredo que, pelo jeito, vinha sendo guardado de geração em geração na família.

Minha sogra, então, sem mais rodeios, disparou:

- A fifi, nossa gata, faz xixi na privada.

Antes mesmo que pudesse assimilar a informação recém jogada em meu colo, um "como é que é?" evadiu-se da minha boca.

Ela, então, como quem já esperava a pergunta, rapidamente, explicou-me que havia ensinado a gata de estimação a fazer xixi em uma privada que fica localizada na parte inferior da casa, praticamente não utilizada.

Explicou-me, ainda, que isso é mais comum do que parece, o que foi por mim confirmado em uma rápida e discreta busca no google.

De todo modo, sendo comum ou não, a informação ficou ressoando em minha cabeça por alguns minutos.

Juliana, aos risos, disse à mãe que talvez tivessem revelado o segredo cedo demais, com o que tive que concordar.

Não estava preparado para tamanha revelação.

Como assim, mano?

Talvez seja apenas impressão minha, mas, desde então, parece que a gata tem me olhado de forma diferente.

Com olhos de quem diz "eu sei que você também sabe".

E foi assim que inventei seu mais novo apelido:

A gata que sabia demais.

terça-feira, 9 de março de 2021

Maldita pontualidade britânica

Não precisa ser nenhum discípulo de Freud para saber que todos nós possuímos alguns traumas oriundos da infância.

"Experiências emocionais desagradáveis" que, invariavelmente, acabam influenciando nosso comportamento na fase adulta.

Um dos meus traumas - o que, aliás, constatei depois de muita reflexão - diz respeito à pontualidade. 

Mais precisamente, à falta dela.

Criança "emperebada" que era, costumava ir muito a médicos variados, que, por sua vez, atendiam em horários bastante conflitantes com minha deficitária agenda infantil

Como consequência, volta e meia, chegava atrasado na escola.

E eu odiava isso com todas as minhas forças

É que, como era muito tímido, não suportava o fato de chegar na escola no decorrer da aula, especialmente por conta do olhar vigilante e julgador dos coleguinhas malévolos de plantão.

Digo, pois, sem qualquer medo de errar, que esses atrasos inocentes me causaram uma espécie de trauma. 

Afinal, mesmo tendo se passado tantos anos desde então, ainda hoje, sou a pessoa mais pontual do mundo.

Do tipo que chega no local com antecedência mínima de 10 minutos (se for um evento informal, claro).

Ao que tudo indica, minha mente não está muito interessada em reviver a sensação que me acometia quando chegava atrasado na escola.

Pode parecer algo bobo não gostar de ser pontual.

Até porque, grande parte das pessoas acha que isso, na verdade, é uma baita qualidade.

Contudo, na prática, não é bem assim que as coisas funcionam.

O problema da pontualidade é que, via de regra, costuma ser uma via de mão única

Tanto que nem mesmo a empatia inerente ao ato de fazer com que outra pessoa não espere é capaz de impedir um atraso.

Na minha próxima vida, pois, quero ser aquele que não está nem aí para o horário marcado.

Mais do que isso, aquela pessoa desprendida ao ponto de sequer possuir um relógio.

Para quem o horário marcado, no fim das contas, não representa nada mais do que uma mera formalidade comumente ignorada.

E que ri descaradamente quando lhe cobram por ter se atrasado.

Enquanto isso não acontece, sigo com minha pontualidade britânica. 

E, antes de qualquer coisa, chateado por ter que ficar esperando - mais e mais - pelos outros que não possuem qualquer culpa pelos meus malditos traumas particulares.

Esperemos, então.

Esperemos.

Foto: https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/talento-em-pauta/pontualidade-no-trabalho-e-suas-consequencias/

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Criciúma sitiada e a bela adormecida

Desde que me conheço por gente, sempre tive um sono extremamente leve.

Do tipo que acorda com o bater das asas de uma borboleta.

Característica essa, aliás, que sempre odiei com todas as minhas forças.

Inveja branca é pouco para definir o que sinto pelas pessoas que dormem, profundamente, sob toda e qualquer circunstância.

Na madrugada do dia 01/12/2020 - meu deus, 2020 já foi? -, contudo,  a história foi outra

Como sabemos, nesse dia específico, Criciúma passou por uma situação bastante incomum.

Sem exagero, foi o cenário de um dos maiores assaltos da história de nosso país - só perdeu para o campeonato brasileiro de 2005.

Bandidos fortemente armados, sem qualquer cerimônia, praticamente sitiaram a Cidade, causando verdadeiro pânico na população.

Literalmente, tomaram a Cidade de assalto.

Para tanto, valeram-se de tiros; reféns; carros blindados; quilos e mais quilos de explosivos, dentre outros.

Há quem diga que até mesmo uma bazuca teria sido utilizada pelos assaltantes na ação criminosa.

Uma bazuca, mano

Surreal.

Meus vizinhos, já na manhã seguinte, relataram ter escutado diversos tiros. Algo absolutamente normal, já que, em linha reta, devo morar cerca de um quilômetro e meio do local onde se deu a ação dos assaltantes.

Ocorre que, mesmo sendo a pessoa com o sono mais leve do mundo, não ouvi um único estampido sequer.

Absolutamente nada. 

Como diria Charles Master, "Zerooooooo".

Para ajudar, meu celular estava no silencioso, de modo que só tomei conhecimento do ocorrido na manhã seguinte, quando me deparei com 74 ligações não atendidas e mensagens variadas da minha namorada, que, aparentemente, estava bem preocupada com a minha pessoa - o que é sempre bom (risos).

Não fossem os helicópteros sobrevoando a Cidade logo cedo, assim como as mensagens dos amigos/familiares, talvez achasse que fosse algum tipo de brincadeira coletiva de gosto duvidoso.

Então, ainda boquiaberto com o que via no noticiário, e com os vídeos que inundavam meu aparelho celular, pus-me a refletir sobre o fato de não ter acordado.

E logo pensei que, se um dia rodarem um filme sobre o assalto, certamente terá uma cena exatamente igual, que, obviamente, será interpretada por algum ator desconhecido recém promovido da figuração.

O mundo lá fora desabando e a bela adormecida aqui dormindo.

D - O - R - M - I - N - D - O!

Embora ainda esteja inconformado com isso, conforta-me o fato de que alcancei o tão desejado sono pesado.

De que dormi, ao menos uma noite, no sono mais ferrado possível.

No futuro, quando alguém me perguntar como foi o tão famigerado assalto, poderei enfim encher o peito e dizer: 

- Não sei, estava dormindo...

E finalmente poder me gabar por ser mais um desses que não acordam assim tão fácil.

Amém.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Dezembro

Sempre gostei muito do mês de dezembro.

Especialmente dessa atmosfera peculiar que só os últimos 30 dias do ano são capazes de nos proporcionar.

Das casas iluminadas; das pessoas na rua até mais tarde comprando presentes umas às outras; exercitando-se; lotando pubs; fazendo ações solidárias, etc.

Da chegada do verão, que, concorde você ou não, é a melhor das estações (este espaço não é nada democrático). 

E, acima de tudo, das festividades. 

De sentar na sala vestindo a melhor roupa e beber uma cervejinha estupidamente gelada, tudo enquanto nossos entes queridos preparam uma refeição calórica o bastante para acabar com a fome no mundo. 

De arrancar um sorriso da mulher que eu amo ao surpreendê-la com um presente que possivelmente superará suas expectativas (spoiler mode on).

Da semana para lá de retrospectiva que separa o Natal do Ano novo.

Até mesmo do infindável especial do Roberto Carlos eu gosto.

"Se outro cabeludo aparecer na sua rua..." 

Da iminência de um novo ano e das expectativas que criamos sobre ele.

De inundar o estômago com "espumante" de qualidade duvidosa após ter ingerido quantidades abusivas de cerveja.

Das superstições. 

Mesmo porque, ninguém confiável, em condições normais de temperatura e pressão, comeria lentilha porque tem vontade, tampouco dissecaria uvas na busca incessante por exatas 12 sementes.

Enfim, do ritual de passagem propriamente dito.

Não se pode negar, dezembro é um mês realmente interessante.

Diferenciado.

Ocorre que, apesar do meu manifesto entusiasmo com esse um doze avos de ano, fazia algum tempo que não o celebrava de forma adequada.

Por mais que estivesse bem sozinho, sentia que faltava algo.

Alguém, na verdade. 

Uma pessoa especial com quem pudesse dividir tudo isso.

Uma pessoa que, felizmente, não falta mais. 

Tudo, absolutamente tudo, me faz crer que este será um dos melhores meses de dezembro que já vivi, senão o melhor.

Nada me resta, pois, senão desejar que vocês tenham um fim de ano tão bom quanto o meu.

No mínimo, igual.

Feliz Natal, caros amigos!

Feliz Natal!

(e um ano novo também)

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Ocupado

Não sei bem em que curva da vida me tornei uma pessoa ocupada.

Lembro que, num passado nem tão distante assim, costumava ser menos atarefado. 

Tempo de sobra, definitivamente, não era um problema. 

Não mesmo.

Já faz algum tempo, no entanto, que isso mudou consideravelmente

Em resumo, estou sempre atolado de tarefas variadas que consomem meu dia sem  qualquer misericórdia.

Minha pulseira contadora de passos é praticamente a prova da materialidade desse "crime".

Tanto que, quando a comprei, não era fácil bater a confortável meta de cinco mil passos diários. Agora, porém, para meu espanto particular, não baixo dos dez mil, o que representa alguns bons quilômetros no fim do dia. 

Já acordo de manhã ligado no 220, pensando que tenho que fazer isso, aquilo e aquilo outro.

Sempre, sempre, sempre tem alguma coisa (não relacionada ao trabalho) para resolver.

Calmaria no more.

Imagino que isso decorra, em grande parte, do fato de morar sozinho

Afinal, as inúmeras tarefas diárias, por não estarem sendo divididas com alguém, certamente, estão tomando meu tempo com mais afinco.

Soma-se a isso as horas ordinárias de trabalho, além das atividades feitas por livre e espontânea vontade, como fazer cerveja, tentar tocar violão, escrever, dentre outras.

Enfim, o fato é que não tenho mais tanto tempo livre como outrora.

Ocorre que, "apesar do tom de pesar", essa falta de tempo livre não é necessariamente ruim.

É que, se de um lado, não consigo fazer tantas coisas inúteis quanto gostaria, de outro, parece-me que estou aproveitando o tempo residual com mais intensidade, algo sempre desejável.

Na dúvida, então, continuarei me mantendo ocupado. 

Até porque, todos concordamos que é melhor fazer coisas de mais do que de menos.

Só acho.

Imagem: http://obviousmag.org/tantas_palavras/2015/06/o-que-fazemos-com-tanto-tempo.html

sábado, 7 de novembro de 2020

Bananas na geladeira

Certo dia, claramente movido pelo tédio, pus-me a refletir sobre o porquê de não guardarmos bananas na geladeira.

Por que, afinal, fazemos isso com quase todas as frutas mas não com as bananas?

Sabia que havia um motivo, claro, só não me recordava qual (ainda).

De toda sorte, cansado da ação brutal que nosso clima tropical exerce sobre elas, as bananas, que, como todos sabemos, acabam estragando antes mesmo que você dê conta de comer um cacho inteiro, resolvi fazer um teste.

EU SOU A LEI!pensei, com direito a caixa alta, negrito, exclamação e tudo que se tem direito.

Até porque, o que poderia dar errado?

Na pior das hipóteses, tiraria o cacho de lá e seguiria minha vida sem maiores intercorrências.

Rapidamente, então, peguei as bananas e as joguei geladeira a dentro, tudo sob o olhar atento da Josefina, minha catiora, que, por sua vez, olhava-me com uma cara de "sei não, pai".

Tão logo fechei a porta "da caixa hermética refrigerante", senti um estranho orgulho tomar conta de mim.

Estava me sentindo ousado. 

Aquele ato, por mais singelo que fosse, representava uma espécie enfrentamento ao sistema. 

Minha casa, minhas regras, disse a mim mesmo em voz alta enquanto batia no peito.

Segundos mais tarde, naturalmente, voltei a meus atos cotidianos, a ponto de esquecer da existência da protagonista desta crônica. 

Como suspeitava, minha vida continuou exatamente igual após a mudança de endereço das bananas.

Somente horas mais tarde, ao abrir a geladeira para pegar água, é que me lembrei do motivo pelo qual não as guardamos naquele local.

A água ficou com gosto de banana; o suco ficou com gosto de banana; o bolo ficou com gosto de banana; até as outras frutas ficaram com gosto de banana.

Embora não tenha certeza, suspeito que até mesmo a geladeira estava com gosto de banana.

Exageros que só cabem numa crônica à parte, um completo desastre.

Por motivos óbvios, desde então, nunca mais guardei bananas na geladeira.

Cheguei à conclusão de que, desta vez, havia ido longe demais.

Por mais que mudanças sejam necessárias, nem tudo deve mudar de lugar; algumas coisas específicas, pelo contrário, devem ficar exatamente onde estão.

As bananas que o digam.

Imagem: https://blog.tudogostoso.com.br/dicas-de-cozinha/como-conservar-a-banana-madura/

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Às vezes a gente acerta

Recentemente, resolvi mudar de cidade.

Nada que pessoas comuns não façam vez ou outra, certo?

Ainda assim, uma decisão bastante ousada, sobretudo se levarmos em consideração que morava na mesma cidade há exatos 22 anos.

Opinião precipitada e irrelevante de terceiros à parte, o fato é que já vinha pensando no assunto há alguns bons meses. 

Certas coisas, porém, como não conseguir vender o apartamento, acabavam atrapalhando os planos.

Tinha o maldito fator comodidade também. 

Por que, afinal, alguém confortavelmente instalado como eu venderia tudo e arriscaria a sorte em uma cidade vizinha? 

"Seria mais fácil fazer como todo mundo faz, sem sair do sofá, deixar a Ferrari pra trás" (Gessinger; dois mil e alguma coisa).

Convenhamos que a vida é curta demais para comermos sempre as mesmas comidas; frequentarmos sempre os mesmos bares; caminharmos sempre nas mesmas ruas; viajarmos sempre aos mesmos destinos.

Partindo dessa premissa, certas coisas não só podem como devem ser mudadas de lugar vez ou outra.

Uma convergência de fatores, como finalmente conseguir vender o apartamento, passar a trabalhar sob regime de home office parcial e amar uma mulher que mora justamente na cidade para a qual me mudei, obviamente, foram determinantes para, enfim, executar a operação "mudança de CEP".

Definitivamente, não tinha como ser mais propício.

Então, de mala e cuia (e catiora), mudei-me para a vizinha Criciúma/SC.

Tinha comigo que gostaria e muito de morar aqui, especialmente em razão das comodidades inerentes a uma "cidade maior". 

Ter tudo ao seu alcance é bem interessante, para dizer o mínimo.

Tanto que, com exceção do friozinho habitual que uma mudança dessa magnitude nos provoca, vim de peito aberto, sem sequer olhar para trás.

Não olhar para trás, aliás, foi um dos motivos que me levaram a tal decisão.

Nada, nada, nada como um encerramento completo de ciclo para dar início a uma vida nova.

Como se um carro com motor retificado fosse, voltei a acelerar.

E digo-lhes, sem qualquer medo de errar, que, mesmo morando aqui há pouco tempo - um mês, para ser mais preciso -, tomei a decisão mais acertada possível.

Incrível quando a vida nos confirma que tomamos a decisão certa, não?

Felizmente, às vezes a gente acerta também.

Parece ter sido o caso.

sábado, 3 de outubro de 2020

Velocidade 37

Só quem trabalhou durante a faculdade sabe como a tarefa é extenuante.

Conciliar estudos e trabalho, definitivamente, não é para os fracos, especialmente se você levar ambos a sério.

Quando você mora longe da Universidade, então...

Levava cerca de uma hora e quinze de onde morava até a Universidade. Uma hora e quinze!

E, por mais que existam pessoas que façam um esforço muito maior - pedalar quilômetros, pegar dois barcos, etc -, uma hora e quinze de ida mais uma hora e quinze de volta continua sendo tempo demais para um homem médio como eu.

Canso só de lembrar.

Lembro-me, também, de que com o avançar da faculdade, na tentativa amenizar esse cansaço, eu e alguns colegas resolvemos ir de carro em alguns dias da semana. Geralmente, no dia do estágio obrigatório, que, via de regra, fazíamos na sexta.

Com o passar do tempo, acabamos criando o hábito de beber no carro durante a volta.

Parávamos em praticamente todas as conveniências espalhadas pelo caminho.

Isso mesmo, voltávamos da faculdade bebendo uma birita durante o trajeto.

Menos o motorista, claro. Será? Fica a dúvida.

O hábito em questão, que, provavelmente, deve ter sido ideia minha (risos), acabou tornando o longo percurso faculdade-casa bem mais leve.

No mínimo, mais divertido.

Além do que, sob essas condições, aquela hora e quinze parecia passar bem mais rápido do que o habitual. 

Parafraseando Zé Ramalho, "Einstein explica".

Outro hábito que criamos - este, tenho certeza, iniciado por mim - era tentar passar nas infinitas lombadas eletrônicas distribuídas pelo caminho a exatos 37 km/h.

Sei lá de onde tirei essa ideia (tédio, talvez), mas o fato é que tentava passar a 37 km/h em todas as lombadas.

E isso, por mais bobo que soe, era divertido. Até porque, eu era particularmente bom nisso, o que não é muito comum.

Nunca contei isso para ninguém, mas, mesmo tendo se passado 13 anos desde então, ainda hoje, não resisto ao "desafio" de tentar passar a 37 km/h nas lombadas eletrônicas da vida.

Por que continuo fazendo isso? Não sei.

O que eu sei é que, sempre que consigo tal façanha - que, convenhamos, de façanha não tem nada -, abro um largo sorriso.

E, claro, lembro desses raros momentos de felicidade que a faculdade me proporcionou.

Daquele tempo em que dávamos uma breve pausa na correria  do dia a dia para vencer as lombadas em relativa baixa velocidade.

Em exatos trinta e sete quilômetros por hora. 

Nem mais, nem menos.


terça-feira, 28 de julho de 2020

Quase 38

Sempre fico um pouco mais reflexivo do que o habitual com a chegada do meu aniversário.

Gosto de fazer uma espécie de balanço da "idade que passou" como forma de constatar se, de fato, estou fazendo valer a pena.

Se não estou deixando esse bem tão precioso chamado vida se esvair sem aproveitá-la de modo adequado.

Coisa minha. 

Uma rápida busca ao google me revelou que, em termos de expectativa de vida, encontro-me praticamente na metade da minha jornada. Afinal, estou na iminência de completar incríveis 38 invernos.

Se esticar o pescoço, é bem capaz que consiga ver os emblemáticos 40 anos se formando no horizonte. 

Por via das dúvidas, então, melhor deixá-lo encolhidoAo menos por enquanto, trinta e oito anos já estão mais do que suficientes.

Não vou mentir, é ligeiramente assustador pensar que, se tudo der certo, já vivi metade do que tinha para viver.

Talvez mais, talvez menos. 

Sempre tem aquela margem de erro que, no caso, espero seja para cima. 

Ocorre que, mesmo funcionando como uma espécie de lembrete anual da nossa finitude, ainda assim gosto bastante de fazer aniversário.

Dessa coisa piegas de celebrar mais um ano vivido com sucesso.

Julguem-me!

E isso tudo ganha contornos ainda mais especiais por conta do momento pelo qual venho passando atualmente.

Sei que não deveria falar isso em voz alta, tampouco imortalizar em forma de texto, mas, definitivamente, a fase é boa.

O segundo semestre dos meus 37 anos, que se iniciou neste "bizarro barra peculiar" ano de 2020, em especial, foi-me bastante generoso. 

Ao revés da coletividade, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo parece dar certo.

Tudo.

Especialmente no campo amoroso, que, como todos sabemos, é o aspecto principal da vida de qualquer um.

Dias de glória, enfim?

Celebrar mais um ano de vida (de máscara), de todo modo, é praticamente uma obrigação

Algo que, este ano, farei com ainda mais prazer.

Pode vir, 38. 

Estarei lhe esperando com uma cerveja gelada na mão!

quarta-feira, 8 de julho de 2020

A arte de acordar cedo sem necessidade

Quando era adolescente, costumava odiar aquelas pessoas que acordam cedo sem necessidade.

As que, mesmo não tendo qualquer obrigação durante o período da manhã - o que, frisa-se, é um privilégio para poucos -, levantam bem cedo para fazer algo considerado "não útil" (embora isso seja um tanto subjetivo).

Aquele casal que, no auge de um rigoroso inverno, fica tomando chimarrão na sacada às seis e pouco da manhã, saca?

Aliás, lembro certinho de ter passado por um desses casais enquanto me dirigia ao Colégio Dom Bosco, quando ainda morava em POA, em meados de 1997.

Afinal, por que esses filhos da puta não estão dormindo a essa hora da manhã? Por quê? 

Era exatamente isso, com palavrão e tudo, o que eu costumava me perguntar (risos).

Ocorre que, como não cansa de nos avisar o "filósofo" Badauí, o mundo dá voltas.

E, claro, agora eu sou uma dessas pessoas aleatórias que acordam cedo sem qualquer motivo aparente.

No começo, até tinha um motivo justo: pedalar. As longas distâncias percorridas em cima da bicicleta exigiam isso.

Não obstante, mesmo tendo abandonado esse esporte sem qualquer aviso prévio (sim, eu cometi esse crime), continuo com essa mania inerente à terceira idade.

Simplesmente não consigo acordar mais tarde.

Estou desconfiado de que os próximos passos serão decorar o nome das flores e lavar a calçada mesmo em dias de chuva (mais risos).

O fato é que, faça frio ou calor, estou de pé às sete da manhã - às vezes, até antes.

Veja bem: começo a trabalhar às 12 (doze) horas. Às 12 horas!!! Logo, não teria por que acordar tão cedo.

Claro que encontrei algumas ocupações para esse período  ocioso (vou à academia, lido com minhas cervejas artesanais, escrevo, etc).

O que me incomoda, porém, é que todos esses afazeres poderiam ficar para mais tarde. Todos.

Em outros termos, sinto-me um idiota; no mínimo, um desperdiçador de sono.

A verdade é uma só: me tornei uma das pessoas que tanto abominava. 

Não bastasse tudo isso, descobri que minha namorada é exatamente igual a mim nesse aspecto.

Igualzinha. 

Logo, transformar-se naquele desconhecido casal que tanto odiei numa gélida manhã do inverno gaúcho de 1997, de repente, não parece algo tão improvável assim.

Pelo contrário, parece apenas uma questão de tempo...

terça-feira, 30 de junho de 2020

Tudo tem seu próprio tempo


Ser solteiro é uma experiência no mínimo interessante.

Afinal, meio que na base da marra, você é obrigado a se autoconhecer. 

Descobrir quem você é de verdade no apagar das luzes.

No começo, é uma sensação um tanto estranha. Quase difícil

A intimidação inerente ao desconhecido costuma tomar uma proporção maior quando nos sentimos sós. 

Depois de um tempo nessa condição, contudo, você se acostuma a ser uma unidade

E, como tal, aprende a se priorizar. Colocar-se à frente das outras coisas, por mais egoísta que isso soe.

Ser solteiro é, antes de tudo, aprendizado. 

No mínimo, uma condição que certamente lhe deixará mais forte.

Uma espécie de treinamento para quando você enfim conhecer a pessoa pela qual você estava tanto esperando.

Afinal, a menos que fique com alguém apenas por ficar - o que, como todos sabemos, não é nada recomendável -, em algum momento da sua vida, você enfim vai conhecer alguém especial.

Aquela pessoa que parece ter sido feita sob encomenda para você.

E, quando isso acontecer, você não vai encontrar dificuldade alguma em reconhecê-la.

Nem uma barra de ouro maciço será capaz de brilhar tanto quanto ela no momento que você encontrá-la.

Saberá, de pronto, que vocês são almas afins.

"Feitos um pro outro, feitos pra durar, uma luz que não produz sombra"

Não vai ter chateação, tampouco forçação de barra.

Como deve ser, todo esforço por você envidado será naturalmente retribuído na mesma intensidade.

Reciprocidade que chama.

Nesse momento, pois, tudo irá mudar

Até a sensação de ser um só, que até então se mostrava bastante confortável, passará a ser vazia, fria.

Quando se der por conta, estará se questionando como conseguiu viver tanto tempo longe daquela pessoa que você conhece há tão pouco tempo.

E, consequentemente, terá pena dos solteiros que se veem momentaneamente privados de desfrutar de sentimentos tão sensacionais e intensos quanto a paixão e o amor.

Até lá, contudo, não se desespere.

Falo isto com propriedade: tudo, sabe-se lá por que, tem seu próprio tempo. 

Apenas desfrute a jornada.

Sua hora, cedo ou tarde, também há de chegar.


Imagem:https://comunidadeviadutos.com.br/site/mensagem/298/relogio-do-coracao


quinta-feira, 11 de junho de 2020

Paixão pandêmica - Capítulo final

O dia que sucedeu ao primeiro encontro foi incrível. Claramente empolgados com o que o futuro lhes reservava, conversaram por horas e horas.

A ousada foto postada por Pedro, claro, não passou incólume; pelo contrário, repercutiu  bastante, sobretudo entre amigos e familiares.

Enquanto uns acharam legal, outros chamaram-lhe de louco.

Apenas "pessoas sendo pessoas". Nada mais do que isso.

O que elas não sabiam, contudo, era que, apesar de um hiato, ambos vinham alimentando aquele sentimento há meses.

E, mesmo sendo algo raro, já haviam desenvolvido um carinho mútuo mesmo antes de se conhecerem

O primeiro encontro, pois, representava mais uma espécie de ato confirmatório do que qualquer outra coisa.

Pedro, em consequência, estava mais do que decidido a pedir Paula em namoro.

Não queria esperar por uma viagem, por uma paisagem incrível ou mesmo pelo momento ideal.

Não precisava de nada disso; queria apenas fazer parte de sua vida.

Assim, no sábado seguinte, levou Paula até seu pub favorito.

Estavam no melhor bar, com o melhor chope, ouvindo a melhor música e na melhor companhia.

Impossível dar errado.

Em determinado momento, então, em meio a um rock barulhento qualquer, carinhosamente, retirou os cabelos de Paula do caminho e, em seu ouvido, perguntou-lhe baixinho:

- Quer namorar comigo?

Após se certificar de que havia mesmo sido pedida em namoro, Paula respondeu com o "quero" mais charmoso da história da humanidade.

Beijaram-se como somente um casal recém formado é capaz de fazer.

Alguns poucos minutos mais tarde, ali mesmo no bar,  como se dois adolescentes fossemalteraram seus status no facebook para "em um relacionamento sério".

O sentimento, nitidamente recíproco, crescia em escala industrial.

Estavam mesmo felizes.

Já no carro, Pedro entregou-lhe uma longa carta que havia escrito dias antes.

Uma espécie de compêndio das palavras mais doces existentes na língua portuguesa.

Abraçaram-se com vontade.

Naquele exato instante, sentiam que haviam encontrado, enfim, aquilo que tanto procuravam.

Uma pessoa capaz de fazer seu olho brilhar.

E tudo isso, por mais surreal que fosse, durante uma pandemia.

Uma pandemia!

O resto é história.

Uma história recente, é verdade, mas, ainda assim, história.

Fim.