sábado, 5 de fevereiro de 2011

Clone etílico



Foto: papodebar.com


Renata chegou em casa alta. Havia bebido um pouco mais que o habitual naquela fatídica noite de março.

- ENTRA! ENTRA! ENTRA! – gritava ainda no corredor para a chave do apartamento, como se tal gesto fosse capaz de atender seu simples anseio.

Dois minutos e muitas risadas depois, conseguiu finalmente entrar em casa. Não sem antes dar uma bela topada no sofá.

Naquela noite, antes de ganhar a rua, havia deixado sete garrafas de cerveja meticulosamente guardadas no freezer. Estavam em um ponto estratégico, no qual a cerveja não chegava ao ponto de congelamento.

- Vem pra mamãe! – disse sorrindo, antes de pegar uma das garrafas com a ponta dos dedos. Até mesmo um garçom tapado - desses que vivem nos servindo cervejas quentes - era capaz de perceber o quão resfriada estava aquela garrafa.

Após servir-se, Renata virou uma taça num único e prazeroso gole. A cerveja estava tão gelada que sentiu seu dente doer. Uma delícia.

Julgava o retorno ao lar o ponto alto da noite. Saía, bebia um pouco com os amigos e voltava correndo para sua fortaleza. Sentia um prazer sem igual quando bebia sozinha em sua casa, sobretudo na companhia de um bom disco de rock'n roll.

Quando recém estava tirando a segunda garrafa do freezer, alguém tocou a campainha. Quem será a essa hora?, pensou.

Sentiu um medinho invadir-lhe a mente. Era a única pessoa que morava no seu andar, já que os outros dois vizinhos haviam se mudado há pouco menos de um mês.

- Quem é? - perguntou titubeante.

- Sou eu, querida. A Bê! - respondeu alguém cuja voz rouca não lhe era nem um pouco familiar.

- Que Bê? - tornou a perguntar.

- A Bê, sua melhor amiga. Lembra?

Renata não conhecia Bê alguma. Ficou intrigada.

Na ponta dos pés, então, correu até a sala e pegou seu aparelho celular. Na pior das hipóteses, ligaria para Rafão, seu irmão troglodita que morava cinco quadras ao sul.

- Eu não conheço nenhuma Beatriz! - disse, enfim.

- Não disse que me chamava Beatriz... Disse?

- Mas qual o seu nome, então?

- Bebedeira - respondeu a rouca do outro lado da porta. - Bebedeira das bravas. Prazer!

Renata sentiu um arrepio assaltar-lhe o corpo. Nunca antes havia sentido tamanho medo. Estava literalmente desconcertada com toda aquela loucura.

Havia bebido um pouco mais que o habitual, era verdade, mas não a ponto de ter alucinações. Ao menos era isso que ela achava.

- Como é que é, não vai me convidar para entrar? - protestou a bebedeira.

- E como eu vou saber que você não é um assaltante? - desafiou.

- Vamos lá, Renata, pára com essa bobagem e deixe-me entrar de uma vez. Estou sedenta por mais uma daquelas suas cervejas... Faz algumas horas que não bebo.

Preocupada com sua sanidade mental, Renata abriu a porta. De pé, parada em frente à entrada, havia outra Renata, tal qual a original. Um clone, deduziu a verdadeira.

Ultrapassada a estranheza inicial, sentaram-se juntas e beberam todas as cervejas que restaram. Em seguida, partiram para a Vodka, o suficiente para adentrarem em outra dimensão.

No outro dia pela manhã, Renata acordou com uma dor de cabeça sem precedentes em sua história particular de ressacas. Parecia que tinha um liquidificador dentro do cérebro.

- Preciso parar de beber o quanto antes... - disse a si mesma em voz alta.

Sentou-se na cama e lembrou do pesadelo que tivera na noite anterior. Aquele, sem dúvida, havia sido o sonho mais real e alucinado que tivera em toda a sua vida.

- Preciso parar de beber - repetiu, desta vez com mais ênfase.

Quando estava se deslocando ao banheiro, alguém gritou da cozinha:

- ESTOU PREPARANDO UMA CAIPIRA PARA NÓS! VOCÊ QUER?!

Subitamente, Renata sentiu o mesmo calafrio da noite anterior. Não estava acreditando naquilo que acabara de ouvir. A bebedeira continuava em seu apartamento. 

Mesmo morrendo de medo, resolveu ir ao encontro da Bê. Precisava ter certeza de que não estava ficando louca.

Logo que entrou na cozinha, viu sua outra "eu" escorada na pia. Seu clone estava visivelmente bêbado e aturdido, como se houvesse atravessado a noite em meio a muito álcool.

Ficaram se olhando por alguns segundos, até que Bê perguntou-lhe com uma voz etilicamente arrastada:

- Então, quer ou não uma caipa?

- Você tem que parar de beber desse jeito - ordenou-lhe Renata. - Já que você é o meu clone, não pode ficar andando bêbada por aí... O que as pessoas vão pensar ao meu respeito? 

Bê - sua imagem e semelhança - sorriu.

- O que foi, agora? - perguntou Renata.

- Quem disse que eu sou o clone?

- Não é? perguntou novamente.

- Diga-me você... - desafiou Bê. 

Renata quedou-se inerte. Quem ela era, afinal? A bêbada ou a sóbria? Quando estava quase sendo vencida pela resignação, teve uma ideia. Ousada, é verdade, mas ainda sim uma ideia.

- Vamos beber todas as bebidas alcoólicas desta casa - propôs. - Perde quem morrer primeiro!

- Mas você já está morta... - disse-lhe a bebedeira.

- M-O-R-T-A? Como assim?

- Let it be - respondeu Bê. - Let it be...

2 comentários:

Igan Hoffman (fazendo o impossível) disse...

Let it be, let it be...kkk
Fiquei confuso agora, sobre quem era quem... mas entendo o texto como um diálogo como sua própria consciência...Poderia ser uma interpretação?
Abraços...
e acessem
http://diariodeigan-h.blogspot. com para lerem outro conto.

Anônimo disse...

Gostei do Clone chamado Bê...LET IT BE...Deixa estar ou deixa ser! Quem já não teve a presença da Bebedeira kkkkkkkk. Adorei. E agora quem era quem?
Beijão da mamis