segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Ocupado

Não sei bem em que curva da vida me tornei uma pessoa ocupada.

Lembro que, num passado nem tão distante assim, costumava ser menos atarefado. 

Tempo de sobra, definitivamente, não era um problema. 

Não mesmo.

Já faz algum tempo, no entanto, que isso mudou consideravelmente

Em resumo, estou sempre atolado de tarefas variadas que consomem meu dia sem  qualquer misericórdia.

Minha pulseira contadora de passos é praticamente a prova da materialidade desse "crime".

Tanto que, quando a comprei, não era fácil bater a confortável meta de cinco mil passos diários. Agora, porém, para meu espanto particular, não baixo dos dez mil, o que representa alguns bons quilômetros no fim do dia. 

Já acordo de manhã ligado no 220, pensando que tenho que fazer isso, aquilo e aquilo outro.

Sempre, sempre, sempre tem alguma coisa (não relacionada ao trabalho) para resolver.

Calmaria no more.

Imagino que isso decorra, em grande parte, do fato de morar sozinho

Afinal, as inúmeras tarefas diárias, por não estarem sendo divididas com alguém, certamente, estão tomando meu tempo com mais afinco.

Soma-se a isso as horas ordinárias de trabalho, além das atividades feitas por livre e espontânea vontade, como fazer cerveja, tentar tocar violão, escrever, dentre outras.

Enfim, o fato é que não tenho mais tanto tempo livre como outrora.

Ocorre que, "apesar do tom de pesar", essa falta de tempo livre não é necessariamente ruim.

É que, se de um lado, não consigo fazer tantas coisas inúteis quanto gostaria, de outro, parece-se que estou aproveitando o tempo residual com mais intensidade, algo sempre desejável.

Na dúvida, então, continuarei me mantendo ocupado. 

De certa forma, aproveitando o tempo livre.

Até porque, todos concordamos que é melhor fazer coisas de mais do que de menos.

Só acho.

Imagem: http://obviousmag.org/tantas_palavras/2015/06/o-que-fazemos-com-tanto-tempo.html

sábado, 7 de novembro de 2020

Bananas na geladeira

Certo dia, claramente movido pelo tédio, pus-me a refletir sobre o porquê de não guardarmos bananas na geladeira.

Por que, afinal, fazemos isso com quase todas as frutas mas não com as bananas?

Sabia que havia um motivo, claro, só não me recordava qual (ainda).

De toda sorte, cansado da ação brutal que nosso clima tropical exerce sobre elas, as bananas, que, como todos sabemos, acabam estragando antes mesmo que você dê conta de comer um cacho inteiro, resolvi fazer um teste.

EU SOU A LEI!pensei, com direito a caixa alta, negrito, exclamação e tudo que se tem direito.

Até porque, o que poderia dar errado?

Na pior das hipóteses, tiraria o cacho de lá e seguiria minha vida sem maiores intercorrências.

Rapidamente, então, peguei as bananas e as joguei geladeira a dentro, tudo sob o olhar atento da Josefina, minha catiora, que, por sua vez, olhava-me com uma cara de "sei não, pai".

Tão logo fechei a porta "da caixa hermética refrigerante", senti um estranho orgulho tomar conta de mim.

Estava me sentindo ousado. 

Aquele ato, por mais singelo que fosse, representava uma espécie enfrentamento ao sistema. 

Minha casa, minhas regras, disse a mim mesmo em voz alta enquanto batia no peito.

Segundos mais tarde, naturalmente, voltei a meus atos cotidianos, a ponto de esquecer da existência da protagonista desta crônica. 

Como suspeitava, minha vida continuou exatamente igual após a mudança de endereço das bananas.

Somente horas mais tarde, ao abrir a geladeira para pegar água, é que me lembrei do motivo pelo qual não as guardamos naquele local.

A água ficou com gosto de banana; o suco ficou com gosto de banana; o bolo ficou com gosto de banana; até as outras frutas ficaram com gosto de banana.

Embora não tenha certeza, suspeito que até mesmo a geladeira estava com gosto de banana.

Exageros que só cabem numa crônica à parte, um completo desastre.

Por motivos óbvios, desde então, nunca mais guardei bananas na geladeira.

Cheguei à conclusão de que, desta vez, havia ido longe demais.

Por mais que mudanças sejam necessárias, nem tudo deve mudar de lugar; algumas coisas específicas, pelo contrário, devem ficar exatamente onde estão.

As bananas que o digam.

Imagem: https://blog.tudogostoso.com.br/dicas-de-cozinha/como-conservar-a-banana-madura/