terça-feira, 26 de abril de 2011

A lua como testemunha...

Foto: overmundo.com.br

Rafael era casado há 7 longos anos. Sempre dizia aos amigos mais próximos que seu casamento era uma verdadeira tragédia. Um desperdício de tempo. 

Definitivamente, não era um homem feliz.

Nos últimos meses, no entanto, não era apenas seu casamento que o incomodava. Seu atual problema tinha nome e sobrenome: Marta Silvestre.

Marta – o problema – era sua amiga. Mesmo sendo alguns anos mais nova, mexia com todos os alicerces de Rafael, como jamais outra mulher fora capaz de fazer um dia.

Era difícil para Rafael resignar-se, mas a verdade é que estava completamente apaixonado por Marta. Completamente. 

Como moravam em cidades diferentes, conversavam vez ou outra em festas promovidas por amigos afins. Nada muito íntimo, porquanto a esposa de Rafael era uma ciumenta implacável.

Ocorre que Rafael havia sucumbido àquele sentimento incontrolável, de modo que precisava encontrar uma forma de expressar para Marta a paixão que o consumia por dentro

Pensou em ser o mais breve possível. Para tanto, bastava-lhe pegar o telefone e contar tudo que se passava no seu peito. Algo teoricamente fácil.

Mas, assim como qualquer pessoa casada, teve medo das possíveis consequências. Algo sempre pode dar errado nesses casos...

Na última reunião com os amigos, cruzou seu olhar com o de Marta inúmeras vezes no decorrer da noite. Tinha a certeza que, de alguma forma, ela entenderia o que se passava com ele. 

No entanto, por mais que se esforçasse em demonstrar interesse, não tinha certeza se Marta sabia dos sentimentos que o envolviam.

A verdade é que estava na dúvida entre arriscar ou não. De qualquer forma, precisava tomar uma atitude o quanto antes. Sair da inércia, como costumava dizer seu avô.

Num ato impensado, marcou outro encontro com os amigos. Seria esta a oportunidade perfeita.

Tão-logo certificou-se de que Marta iria à festa, deu um jeito de livrar-se da esposa. Como não a amava mais, não foi algo tão difícil assim.

Sentiu um pouco de remorso ao fazê-lo, é verdade, mas julgou tal ato imprescindível para a conclusão de seu plano. Ademais, impossível declarar-se para Marta com a esposa do lado.

Dias mais tarde, chegou enfim o tão sonhado evento.

Os amigos estranharam a ausência da esposa de Rafael. Contudo, estavam gostando da nova faceta do amigo, que estava se mostrando bastante interessado no assunto de todos.

Após trocar diversos olhares com o objeto da sua paixão, resolveu agir. Com alguns resquícios de reticência, atravessou a sala que os separava e pegou na mão de Marta; tudo sob o atento olhar dos amigos.

Em seguida, conduziu-a até a rua. Contornaram a casa e foram até os fundos desta, em que o breu só era interrompido pela lua que se estendia sobre suas cabeças.

Nem mesmo o murmúrio que vazava pelas frestas das janelas conseguiu estragar o tão sonhado encontro. Tudo estava deliberadamente perfeito.

Então, após alguns segundos de um absoluto silêncio, Marta perguntou-lhe:

- O que você quer comigo, Rafa?

Rafael não disse nada. Apenas limitou-se a beijá-la.

Marta, que não demonstrava qualquer sinal de espanto, retribuiu o beijo com fervor. Foi um beijo carinhoso. Suave. Quase um sonho...

Ela, então, colocou sua delicada mão sobre os lábios de Rafael e disse-lhe com a voz suave:

- Eu sei, querido... Eu sei...

Em seguida, virou-se e foi embora da festa.

Após aquela noite, Rafael e Marta nunca mais se viram. 

Viveram suas vidas de forma autônoma. Um sem o outro, pelo resto de seus dias.

Desde então, Rafael não pode ver a lua, porquanto basta esta iluminar a noite para que uma lágrima role por seu rosto. 

No fundo, sabe que o luar jamais voltará a ter o mesmo brilho... A mesma intensidade...

3 comentários:

Marco disse...

desencontros! essa é a palavra... e, sim, ele não estragou nada ao não falar, como eu faria... apenas beijou, o que eu não faria, e me arrependeria pelo resto da minha vida...
certamente, Rafael sofreu, mas não ficou "sezando" nada dali para diante...
muito boa a história...

Thais (Viaje na Leitura) disse...

Que conto triste! Pensei que ficariam juntos rs

Mas muito bom!

Drisph disse...

Olá amigo!!! eu aprecio os contos tristes, palavras tristes... Elas aspiram inspirações contidas; prendem os olhos. Obrigada pela visita.